Relógio do Rosário by Carlos Drummond de Andrade

Explore "Relógio do Rosário" by Carlos Drummond de Andrade on Textopian. Read with annotations and highlights.

Era tão claro o dia, mas a treva, / do som baixando, em seu baixar me leva / pelo âmago de tudo, e no mais fundo / decifro o choro pânico do mundo, / que se entrelaca no meu próprio choro, / e compomos os dois um vasto coro.

Oh dor individual, afrodisíaco / selo gravado em plano dionisíaco, / a desdobrar-se, tal um fogo incerto, / em qualquer um mostrando o ser deserto, / dor primeira e geral, esparramada, / nutrindo-se do sal do próprio nada, / convertendo-se, turva e minuciosa, / em mil pequena dor, qual mais raivosa, / prelibando o momento bom de doer, / a invocá-lo, se custa a aparecer, / dor de tudo e de todos, dor sem nome, / ativa mesmo se a memória some, / dor do rei e da roca, dor da cousa / indistinta e universa, onde repousa / tão habitual e rica de pungência / como um fruto maduro, uma vivência, / dor dos bichos, oclusa nos focinhos, / nas caudas titilantes, nos arminhos, / dor do espaco e do caos e das esferas, / do tempo que há de vir, das velhas eras!

Reading navigation