Explore "O Caso Da Senhorita Amélia" by Rubén Darío on Textopian. Read with annotations and highlights.
Que o doutor Z seja ilustre, eloquente, conquistador; que sua voz seja profunda e vibrante ao mesmo tempo, e seu gesto avassalador e misterioso, sobretudo depois da publicacão de sua obra sobre A expressividade do sonho, talvez pudesse negá-lo ou aceitá-lo com restricão; mas que sua calva seja única, insigne, bela, solene, lírica se preferir, oh, isso nunca, tenho certeza! Como negaria a luz do sol, o aroma das rosas e as propriedades narcóticas de certos versos? Pois bem; na noite passada, pouco depois de saudarmos o toque da meia-noite com uma salva de doze estouros do mais legítimo Roederer, na preciosa sala de jantar rococó desse judeu sibarita que se chama Lowensteinger, a calva do doutor destacava aureolada de orgulho sua polida esfera de marfim sobre a qual, por um capricho da luz, viam-se sobre o vidro de um espelho as chamas de duas velas que formavam, não sei como, algo assim como os cornos luminosos de Moisés. O doutor enderecava a mim seus grandes gestos e suas sábias palavras. Eu tinha soltado de meus lábios, quase sempre silenciosos, uma frase banal qualquer. Por exemplo, esta:
– Oh, se o tempo pudesse parar!