Explore "Movimento Da Espada" by Carlos Drummond de Andrade on Textopian. Read with annotations and highlights.
Estamos quites, irmão vingador.
Desceu a espada / e cortou o braco.
Cá está ele, molhado em rubro.
Dói o ombro, mas sobre o ombro / tua justica resplandece.
Já podes sorrir, tua boca / moldar-se em beijo de amor.
Beijo-te, irmão, minha dívida / está paga.
Fizemos as contas, estamos alegres.
Tua lâmina corta, mas é doce, / a carne sente, mas limpa-se.
O sol eterno brilha de novo / e seca a ferida.
Mutilado, mas quanto movimento / em mim procura ordem.
O que perdi se multiplica / e uma pobreza feita de pérolas / salva o tempo, resgata a noite.
Irmão, saber que és irmão, / na carne como nos domingos.
Rolaremos juntos pelo mar.
Agasalhado em tua vinganca, / puro e imparcial como um cadáver que o ar embalsamasse, / serei carga jogada às ondas, / mas as ondas, também elas, secam, / e o sol brilha sempre.
Sobre minha mesa, sobre minha cova, como brilha o sol!
Obrigado, irmão, pelo sol que me deste, / na aparência roubando-o.
Já não posso classificar os bens preciosos.
Tudo é precioso. / e tranquilo / como olhos guardados nas pálpebras.
(rp)