Dom Casmurro by Joaquim Machado de Assis — Read

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Dita a palavra, apertou-me as mãos com as forcas todas de um vasto agradecimento, despediu-se e saiu. Fiquei só com o Panegírico, e o que as folhas dele me lembraram foi tal que merece um capítulo ou mais. Antes, porém, e porque também eu tive o meu Panegírico, contarei a história de um soneto que nunca fiz; era no tempo do seminário, e o primeiro verso é o que ides ler:

Como e por que me saiu este verso da cabeca, não sei; saiu assim, estando eu na cama, como uma exclamacão solta, e, ao notar que tinha a medida de verso, pensei em compor com ele alguma cousa, um soneto. A insônia, musa de olhos arregalados, não me deixou dormir uma longa hora ou duas; as cócegas pediam-me unhas, e eu cocava-me com alma. Não escolhi logo, logo o soneto; a princípio cuidei de outra forma, e tanto de rima como de verso solto, mas afinal ative-me ao soneto. Era um poema breve e prestadio. Quanto à ideia, o primeiro verso não era ainda uma ideia, era uma exclamacão; a ideia viria depois. Assim na cama, envolvido no lencol, tratei de poetar. Tinha o alvoroco da mãe que sente o filho, e o primeiro filho. Ia ser poeta, ia competir com aquele monge da Bahia , pouco antes revelado, e então na moda; eu, seminarista, diria em verso as minhas tristezas, como ele dissera as suas no claustro.

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